Voto de confiança



Confio na democracia. Ela traz em si mesma as sementes de seu próprio aperfeiçoamento. Confio na sabedoria do voto que tem, no Brasil, distribuído o poder entre partidos diferentes e até adversários, para que cada um tenha uma vitória para contar, e nenhum tenha o controle total do país. Confio nas instituições que limitam os excessos de cada poder. Não acredito nas alternativas.

O voto é soberano e ele decide hoje quem governará o Brasil. Esse processo eleitoral teve ruídos e erros, mas, ao final, o que se pode ouvir é a informação de que ninguém é dono do Brasil. A convicção de alguns de que um governante popular dita sua vontade e, como um midas, transforma em vencedores todos os que toca, não se confirmou no mapa do poder dos estados e na ocorrência do segundo turno. O eleitor quis pensar melhor e hoje vota novamente. A pessoa que tiver mais votos hoje passou por um duplo teste de força e sairá com mais legitimidade das urnas.

Há sempre em cada final de eleição os eufóricos e os deprimidos. Peço licença para escolher um terceiro sentimento: o da alegria de ver mais uma vez no país o belo processo da escolha direta para Presidência da República, que o Brasil um dia exigiu nas praças, sob o comando dos líderes da oposição ao regime militar, como Ulysses e Tancredo.

Os que terminarem o dia eufóricos devem pensar naqueles que não os escolheram, porque eles fazem parte do mesmo país e seu “não” tem significado. Os que forem dormir derrotados devem pensar nos votos que receberam como um mandato para exercer o fundamental trabalho de ser oposição, sem o qual o sistema de pesos e contrapesos falha.

Confio na democracia sem adjetivos porque assim ela fica mais simples. Exige que governo governe e decida; que a oposição critique, fiscalize e mostre opções. Não dispensa equilíbrio entre os poderes e não sobrevive sem imprensa livre. Deve-se rejeitar, por contraditória, a adjetivação da liberdade. Uma imprensa monitorada por conselhos corporativos terá limitações intoleráveis ao exercício de sua função. Quem consome notícias e análises na era da revolução digital e a superoferta de informação sabe onde encontrar o que quer. Tem discernimento. Monitorar é uma forma de limitar a liberdade de imprensa e subestimar o consumidor de informação.

A geração que viu a supressão das liberdades é compelida a defendê-la. Hoje se enfrentam nas urnas dois integrantes dessa geração. José Serra foi para o exílio depois de uma experiência de liderança política estudantil que o levou a ter diálogos com grandes autoridades da República daquele início dos anos 1960. Do Chile fugiu quando viu, pela segunda vez, ruírem as instituições democráticas. Voltou ao Brasil, anos depois, para reconstruir a democracia. Seu primeiro cargo público de peso foi reorganizar o planejamento e a administração no estado de São Paulo demolidos pela desastroso governo de Paulo Maluf. Depois, passou por seguidos testes das urnas, conhecendo vitórias e derrotas, e assumiu desafios de gerir até áreas que desconhecia e pelas quais se apaixonou: como a saúde. Dilma Rousseff foi atraída para o movimento mais pesado de contestação à ditadura no período de radicalização que ocorreu após o Ato Institucional número 5. Aquele era um tempo em que os ditadores dobraram o grau de violência contra os opositores. Jovens com cabeça política viram os caminhos da participação política se estreitarem. Foi assim que Dilma, e outros, optaram pela luta armada. Foi presa e torturada. Na volta da democracia pegou um dos vários rios em que se dividiu a oposição e ficou ao lado do brizolismo. Foi para a administração pública fazer carreira de gestora estadual e depois, já no PT, assumir cargos no alto escalão do governo federal. Dilma e Serra se enfrentam hoje no esforço pela confiança do eleitor. Uma disputa que tem Dilma como favorita nas pesquisas, mas que só termina quando se contarem os votos, porque eleitor exige que se espere com calma até o fim do dia pelo veredicto coletivo.

Não se deve jamais subestimar os riscos que a democracia corre num país que já teve tantos períodos autoritários e numa região em que alguns governantes decidiram modificar a democracia com suas próprias mãos. O resultado das experiências de alguns dos nossos vizinhos não é animador. As instituições vão sendo moldadas para caber no modelo que os serve mais, e vão sendo desfiguradas até não lembrarem em nada a forma original. Adversário é tratado como inimigo, crítica ao governo é acusada de ser torcida contra o país, divergências são silenciadas, fiscalização é condenada como golpismo ou tentativa de desestabilização do governo “popular”.

Que o maniqueísmo do segundo turno tenha ficado para trás. Os grupos que se enfrentam hoje nas urnas fizeram juntos a melhor obra recente. Os historiadores terão dúvida de demarcar o terreno dos últimos 16 anos. Fernando Henrique iniciou no governo Itamar Franco — e avançou nos seus dois mandatos — a obra da modernização do Brasil. Lula consolidou o que herdou e aprofundou o processo de inclusão social. No entanto, os dois grupos pelejaram no campo de batalha nos últimos meses, com armas nem sempre recomendáveis.

Confio na democracia. Ela tem filtros para decantar os excessos, corrigir os rumos e restabelecer a sensatez perdida no furor da campanha. Cesse tudo agora que o voto vai ser digitado na urna. São dois números e um aperto na tecla “confirma”. Simples e decisivo. Às urnas, cidadãos.

Artigo de Miriam Leitão.
Disponivel em http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2010/10/31/voto-de-confianca-336835.asp

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